Bens da Marinha no inventário: o que você precisa saber
Por Luciane Irmes, advogada · OAB/RJ 99.039 · 20 de setembro de 2026
Depende do que você precisa resolver, mas na maioria das vezes a ida à Marinha é uma etapa do processo, não o ponto de partida. Antes de marcar qualquer atendimento lá, vale entender o que está envolvido, para não perder tempo indo ao lugar errado ou sem os documentos certos.
O que é um terreno de Marinha?
Terreno de Marinha é uma faixa de terra que pertence à União e fica às margens do mar, de rios navegáveis e de lagoas. A pessoa que vive ou tem um imóvel nessa faixa não é dona do terreno em si: ela é foreira ou enfiteuta, termos que significam que ela tem o direito de usar aquele terreno, mas a União continua sendo a proprietária. Por isso, no inventário, não se transfere propriedade plena como em qualquer outro imóvel: transfere-se esse direito de uso, chamado de domínio útil.
Isso muda bastante o que precisa ser feito.
Por que o inventário de um imóvel assim é diferente?
Quatro pontos tornam o processo mais trabalhoso do que o de um imóvel comum:
- Laudêmio: quando o domínio útil muda de titular, a União cobra uma taxa chamada laudêmio. No inventário, a maioria das interpretações reconhece que a transmissão causa mortis (por falecimento) não gera laudêmio, mas isso precisa ser confirmado caso a caso porque a situação do imóvel pode variar.
- Foro anual: o foreiro paga todo ano uma taxa à União. O espólio, que é o conjunto dos bens do falecido antes da partilha, pode ter dívidas de foro em aberto. Essas dívidas precisam ser verificadas e, em geral, quitadas antes da transferência.
- Certidão de situação do imóvel: a SPU (Secretaria do Patrimônio da União), que é o órgão que cuida dos terrenos de Marinha, emite certidões que mostram quem está registrado como foreiro, se há débitos e qual é a situação do contrato de aforamento. Essa certidão é indispensável.
- Cadastro e transferência na SPU: depois que o inventário é concluído (seja em cartório ou no fórum), a transferência do domínio útil para os herdeiros precisa ser registrada também na SPU, não só no Cartório de Registro de Imóveis. São dois procedimentos distintos.
A Marinha e a SPU são a mesma coisa?
Não são. A Marinha do Brasil é a Força Naval. Quem administra os terrenos de Marinha é a SPU, vinculada ao Ministério da Gestão. O nome "terreno de Marinha" é histórico: vem de quando essa administração ficava com a Marinha, mas já faz décadas que a gestão passou para a SPU. No Rio de Janeiro, o atendimento da SPU fica no Centro. Para regularizações e certidões de imóveis da União, é lá que você vai, e não em nenhuma instalação da Força Naval.
Por onde começar na prática
Antes de ir pessoalmente a qualquer órgão, reúna o que tiver em mãos:
- Escritura ou documento que comprove o aforamento (o contrato com a União)
- Carnês de foro dos últimos anos, para saber se há débito
- Matrícula do imóvel no Cartório de Registro de Imóveis
- Certidão de óbito do falecido
- Documentos dos herdeiros (RG, CPF, certidão de casamento se for o caso)
Com isso em mãos, é possível verificar online no portal da SPU se o imóvel tem débitos de foro e como está o cadastro do foreiro. Só depois, se houver necessidade de regularização ou atualização de dados, é que o atendimento presencial ou pelo sistema da SPU faz sentido.
O inventário em si, seja o processo que envolve família e sucessão ou a parte específica do imóvel da União, segue o rito normal: cartório se todos os herdeiros forem maiores, capazes e concordes; fórum se houver menor, incapaz ou discordância. A diferença é que, ao final, além do formal de partilha (o documento que a Justiça emite e que permite transferir os bens), será necessário levar a documentação à SPU para atualizar o cadastro do domínio útil em nome dos herdeiros.
O que verificar antes de qualquer passo
- O imóvel é realmente em terreno de Marinha ou em área particular? Isso precisa ser confirmado na matrícula e na SPU.
- Há débitos de foro em nome do espólio?
- O aforamento está regularizado, ou o falecido nunca fez a transferência de uma compra anterior?
- Há mais de um herdeiro? Todos concordam com a partilha?
A resposta a cada uma dessas perguntas vai determinar o caminho e o tempo do processo.
Se quiser organizar essas informações antes de tomar qualquer decisão, posso conversar com você para mapear a situação do imóvel e dos herdeiros.